October 2009
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“A megera se destaca nos tempos presentes como um fóssil da alta estima que a burguesia demonstrava pela mulher. Seus berros são, desde tempos imemoriais, a vingança que ela tira em sua própria casa pelas misérias que seu sexo teve que sofrer. Na falta da genuflexão, que não lhe cabia, a velha ruim se põe a invectivar, mesmo fora de casa, o distraído que deixa de se erguer em sua presença, e derruba-lhe o chapéu da cabeça. De qualquer maneira, este tinha que rolar pelo chão; é o que ela sempre exigiu na política, seja como reminiscência de seu passado bacante, seja procurando superar numa fúria impotente o próprio homem e sua ordem. A sede de sangue que a mulher demonstra no pogrom supera a do homem. A mulher oprimida como megera sobreviveu a sua época e continua a mostrar a careta da natureza mutilada numa época em que a dominação já se pôs a modelar o corpo treinado dos dois sexos, reduzindo-os a uma uniformidade que faz desaparecer a careta. Contra o fundo dessa produção em massa, as increpações da megera, que pelo menos conservou sua própria cara, distinta das demais, torna-se um sinal de humanidade - e a feiúra, um vestígio do espírito. Se a moça nos séculos passados exibia sua submissão nos traços melancólicos e na devoção amorosa, imagem alienada da natureza, objeto estético-cultural, a megera acabou por descobrir uma nova vocação feminina. Como uma hiena social, ela se pôs a perseguir ativamente objetivos culturais. Sua ambição aspira por honrarias e publicidade, mas seu sentido pela cultura masculina ainda não está aguçado a ponto de impedir que reaja mal à dor que lhe é inflingida, mostrando assim que ainda não se sente à vontade na civilização dos homens. A mulher solitária busca refúgio numa mistura de ciência e magia, em obras ridículas que nascem do ideal de um conselheiro de Estado ou de uma vidente nórdica. Ela sente-se atraída pela desgraça. A derradeira oposição feminina ao espírito da sociedade dos homens afunda-se no pântano das pequenas extorsões, dos conventículos e dos hobbies, ela se converte na agressão pervertida do social work e da conversa fiada teosófica, no exercício dos pequenos rancores em obras de beneficência e na Christian Science.”
—Dialética do esclarecimento:fragmentos filosóficos. Max Horkheimer e Teodor Adorno. Jorge Zahar Ed., 1985